segunda-feira, 25 de junho de 2018

Rosto de Suzane von Richthofen é escondido em fotos com a família do noivo


Agora que o resultado do teste de personalidade Rorschach apontou características que revelam a inaptidão de Suzane von Richthofen para conviver em sociedade, o blog foi até a cidade onde a detenta pretende morar com o namorado, um marceneiro chamado Rogério Olberg, de 39 anos, para saber como o povo da região recebeu a notícia. O laudo do teste aplicado em Suzane foi revelado há uma semana pelo programa “Fantástico”, da TV Globo.
Angatuba fica a cerca de 200 km de São Paulo, tem uma igreja pintada de rosa que fica na parte de cima de uma praça central em aclive, um coreto e um supermercado chamado Xodó. No ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o município ocupa o 476º lugar do estado, em 645 — segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Olberg mora em uma casa de quatro cômodos em um bairro distante 6,5 km do centro, conhecido como Diogo, cujo acesso se dá por uma pedregosa estrada de terra batida.
Condenada a 39 anos de cadeia por planejar a morte dos pais com seu namorado e o irmão dele, Richthofen morava no Brooklin, zona sul de São Paulo, em um casarão com piscina, churrasqueira e um quarto só para ela. Dirigia o próprio carro.
A casa em que Suzane deve morar quando deixar a cadeia (esq.); e a que ela morava com os pais, quando foi presa (Foto: Paulo Sampaio/UOL)

Dragão tatuado no pé

Sem avisar, o blog foi à casa de Olberg por volta das 9h da manhã. Depois de bater palmas e gritar “ô de casa” várias vezes, chamou um vizinho para saber se o marceneiro havia saído. Não, ele estava dormindo. O vizinho bateu na janela e o acordou. Com 1,72 m de altura, bíceps trabalhados na academia improvisada ao fundo da casa, ele apareceu de jeans, camiseta e havaianas que deixavam à mostra uma tatuagem “que não deu certo” no peito do pé. Dois dragões, um de frente para o outro. Tem dois cachorros por quem se mostra muito afeiçoado; um labrador e um shar-pei recém nascido, “que late a noite inteira”. Diz isso pegando o cão no colo e fazendo carinho. “Por enquanto ele é só chorão”, diz, olhando para o animal.
Berg, como é chamado na cidade, conheceu a namorada em suas visitas à irmã no presídio de Tremembé, onde ela cumpre pena por participação em episódios de pedofilia. “Nunca a tinha visto (Suzane) porque ela não recebe visitas. Mas um dia ela passou por um corredor envidraçado que fica perto do pátio, e deu certo de eu estar ali. Comentei com minha irmã, ela me disse que era uma pessoa ótima. E aí a gente se aproximou.”

Culpa da mídia

Na ocasião, ele trabalhava em um supermercado em Ibiúna, a 70 km de São Paulo, como embalador e carregador. Foi despedido porque o patrão achou que o relacionamento dele com a presidiária famosa comprometeria a reputação do comércio. Como era jogador amador de futebol, mudou-se para o Diogo atraído pelo relacionamento com amigos do esporte.
Segundo Berg, o relacionamento com Suzane já tem mais de três anos. Em Angatuba, as amizades dela se resumem aos familiares dele. O marceneiro calcula que 80% da vizinhança “no Diogo” são parentes. O marceneiro acredita que “tudo o que falam de mal (de sua namorada) é culpa da mídia”. “Se você conversa, convive de perto, não reconhece a pessoa que eles retratam na TV.” O teste de Rorschach a avaliou como  “manipuladora”, “onipotente”, “imatura” e “egocêntrica”.
Suzane em 2005 (Imagem: Tuca Vieira/Folhapress)

Quem é o gato?

A outra irmã de Berg, Josiely, que é sua vizinha, acolheu a cunhada presidiária de braços abertos. Afirma que as pessoas quem convivem com ela são do círculo de amizades deles e por isso nunca tiveram problema para integrá-la socialmente: “São amigos que convivem com a gente há muito tempo, conhecem a nossa índole, sabem que não receberíamos em casa alguém que não fosse como nós”, diz. No facebook, porém, Josiely postou fotos de reuniões com amigos e familiares em que Suzane aparece camuflada pelo desenho de um gato.
“Olha, eu acho que a reação das pessoas aqui na cidade é mista”, afirma um vereador que se orgulha em  identificar-se como o advogado de Berg (“Fiz os dois divórcios dele”). “Tem o morador que já se acostumou com a presença da Suzane, e o que não aceita de jeito nenhum o que ela fez. Sabe como é, o povo fala mesmo.” O advogado, que além de vereador é evangélico, diz que o casal Berg frequenta o mesmo culto que ele. “Vou tentar falar com o pastor.” Liga, mas… o pastor não quer falar. Josiely afirma que Suzane já foi em várias igrejas da cidade e que “fica estranho um pastor só falar”.

Rinoceronte de Sumatra

De uma maneira geral, o habitante de Angatuba costuma se referir à visitante como se fosse uma espécime rara. “Eu já a vi de longe”, diz uma contadora, no Xodó. “Ela desceu da garupa da moto do Berg (uma Honda Twister 250 cc) e entrou na farmácia.”
A opinião da população da cidade sobre Suzane não pode se basear em análises muito profundas. Ela não é de circular. “Se a gente vai ao centro, volta rapidinho”, diz Berg.
Em uma de suas raras aparições públicas, Suzane foi à feira da lua, realizada na praça da igreja, e se identificou na barraca do “lanche de pernil” pelo seu segundo nome. A dona conta que perguntou como ela se chamava, para entregar o sanduíche quando estivesse pronto, e Suzane respondeu: “Louise”. “Minha filha a reconheceu. Disse: ‘Mãe, não é aquela da TV que matou o pai de a mãe?'”
Suzane estava com a filha pequena de um pastor, e a menina perguntou: “Por que você mudou seu nome?”, ao que Suzane fez “Pshhh!”

Acabou a paz

“O pessoal aqui já gosta de encrenca, agora então acabou a paz”, acredita uma vizinha de Olberg no Diogo, referindo-se a Suzane. “Mas, realmente, uma moça dessa não pode dar sopa sozinha em São Paulo. O povo acaba com ela.”
Outra angatubense, acessada na padaria, afirma que dará “uma segunda chance” a Suzane: “Quem sou eu para julgar. Isso só quem pode fazer é ele (apontando o dedo indicador com a unha pintada de vermelho para o céu).”
Mesmo aqueles dispostos a “perdoá-la e acolhê-la” preferem não ser identificados na matéria. Sintomático.

Progressão e progressiva

É a segunda vez que o teste de Rorschach delcara Suzane inapta para o convívio social. Da primeira, em 2014, o diagnóstico não foi suficiente para impedir a progressão da pena para o regime semi-aberto; agora, ela pleiteia fazer a transição para o regime aberto, que é praticamente a liberdade — determina-se apenas o comparecimento ao fórum regional, de tempos em tempos.
“Ela contou que sofreu muito nos cinco primeiros anos na cadeia…”, lembra o cabeleireiro que fez uma “escova progressiva” na detenta, quando ela saiu da cadeia no indulto do dia das mães (que por sinal levou muitos cidadãos de Angatuba a se perguntarem com indignação: “Como alguém que fez o que ela fez é liberada justo nesse dia?”). O cabeleireiro conta que Suzane pediu para fechar o salão, a fim de evitar o assédio dos indiscretos e possíveis agressões. Apesar da tentativa de sensibilizá-lo, falando de seu sofrimento na penitenciária, Suzane não parece ter tido sucesso. “A maior parte das pessoas não esquece não. Comenta mesmo.” O cabeleireiro incluído.
No salão, a filha de um figurão da cidade diz: “O povo tira foto dela no supermercado e passa nos grupos de whatsapp, caçoando.”

Celebridade que denigre

Quem pagou a progressiva foi Berg. E será assim, enquanto Suzane não começar a trabalhar. Uma das possibilidades de emprego é em uma fabriqueta de jeans na região, onde o administrador, Daniel Carneiro da Silva, amigo de Berg, ficou de ver uma vaga para ela. O blog tentou falar com Daniel, mas a mulher que atendeu o interfone disse que “ele não está falando mais com imprensa”. “Isso aqui na semana passada tava um inferno!”
“É um tipo de celebridade que não valoriza a imagem de Angatuba”, acredita o assessor de imprensa da Prefeitura, Air Antunes. “Diferente daquele ator da Globo que quer comprar um sítio aqui, na região rural…”
Quem?
“Como é mesmo o nome dele…Peraí (consulta o Google)…Sérgio Guizé, sabe quem é? Ele veio com a mulher (Bianca Bin).” A assessoria de Guizé não confirma nem nega.

Autonomia social

Berg diz que não vê “nada de extraordinário” na presença da namorada na cidade. Ele conta que é cristão e que nunca passou pela sua cabeça que Suzane, convertida à mesma fé, pudesse ser mal recebida. “Quem convive com ela já é gente sem preconceito, todo mundo muito tranquilo. As pessoas sabem que, se eu estou com ela, é porque ela não representa nenhum perigo”, infere.
De qualquer maneira, o marceneiro se define como “caseiro”, o que dá a entender que desfruta de uma certa “autonomia social”.  Assim, não depende de mais gente do que a vizinhança e os fiéis do culto para viver em paz. Aguardemos os próximos capítulos.
Vista da praça principal de Angatuba; o coreto e a igreja pintada de rosa (Foto: Paulo Sampaio)

Inconfidência repudiada

O Conselho Federal de Psicologia (CFP) e o Regional do Rio de Janeiro (CRP-RJ) publicaram no Facebook notas de repúdio ao vazamento do laudo do teste de Suzane para a mídia: “O CRP-RJ reforça que todo o registro documental resultante da prestação de serviços psicológicos é de natureza confidencial e sigilosa, cabendo à (ao) psicóloga (o) a guarda desse material.”

E quem teria aplicado o teste?

A assessoria do Ministério Público de São Paulo afirma que não pode informar nada, uma vez que o caso “corre em segredo de Justiça”. Pelo mesmo motivo, o advogado de Suzane, Saulo Dutra, da Defensoria Pública, não fala com a imprensa nem mesmo para dizer que reprova o vazamento do laudo. Nenhum psicólogo do Hospital das Clínicas, uma referência no país, quis falar sobre o teste — mesmo sem mencionar especificamente o de Suzane. Na Escola Paulista de Medicina, idem.
O blog conversou com a psicóloga Mônica Evelyn Thiago, da Sociedade Rorschach de São Paulo (SRSP), para saber como é feita a prova e a avaliação. A sociedade também produziu uma nota afirmando que “não compartilha da exposição de laudos e/ou informações provenientes deles”.

UOL 


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