terça-feira, 13 de março de 2018

Interventor no RJ nega fichamentos e chama Vila Kennedy de 'laboratório'

Interventor federal na segurança do Rio, o general Walter Braga Netto diz que só polícia não basta para resolver o problema da violência do país. Inclusão social e oferta de serviços públicos básicos às populações carentes, segundo ele, seriam fundamentais para que as ações de combate ao crime organizado tenham êxito.
“Para que esse resultado se estenda e seja perene, será preciso, como também propomos, a adoção de outras iniciativas por parte de setores do governo e da sociedade, como projetos de inclusão social e oferta de serviços públicos. Segurança pública é uma demanda que não se resolve apenas com ação policial”, afirmou Braga Netto.
A afirmação foi dada à Folha em resposta a perguntas enviadas por e-mail. A reportagem solicitou uma conversa direta com o militar, para que pudesse contrapor as respostas, o que negado pela assessoria do general, que alegou falta de tempo. Ao todo, foram enviadas 13 perguntas —todas respondidas.
Braga Netto, que chefiará as polícias do Rio até dezembro, quando durar a intervenção federal, reafirmou que o objetivo da intervenção é recuperar a chamada “capacidade operativa das polícias” por meio de investimentos em frota, armamentos e mão de obra. Também reforçou que haverá esforço para moralizar as corporações, por meio do fortalecimento das estruturas de corregedoria das polícias militar e civil, além de investir na valorização do policial. Por fim, disse esperar “integração e sinergia” entre órgãos envolvidos na segurança.
Sobre grupos criminosos, afirmou que nada muda no combate, por exemplo, às milícias. Conforme a Folha mostrou na última quinta, em sete meses de operações com militares no Rio, não houve ações em áreas dominadas por milicianos. O combate, disse ele, continuará sendo feito pela delegacia especializada no assunto.

OPERAÇÕES

Principal alvo dos militares desde o início da intervenção, a Vila Kennedy foi chamada pelo general de “laboratório”. Até sexta, o Exército havia realizado seis operações na comunidade da zona oeste, reduto dos traficantes do Comando Vermelho.
Os militares têm retirado bloqueios montados por traficantes, que recolocam as barricadas logo após a saída das forças de segurança, geralmente no fim da tarde.
Braga Netto descartou a possibilidade de “ocupação” da comunidade ou qualquer outra favela no âmbito da intervenção. “Vamos estabilizar o terreno inicialmente com reforço do policiamento ostensivo, com investigação para localizar e prender os criminosos. Esse trabalho inicial vai permitir o acesso dos prestadores de serviço público e privado”, disse o general.
O interventor negou também que tenham havido “fichamentos” de moradores de favelas do Rio. Na Vila Kennedy, centenas de moradores só puderam deixar a comunidade após terem o rosto e o RG fotografados. As imagens eram enviadas para o setor de inteligência da Polícia Civil. Os militares só liberavam os moradores após constatarem que a pessoa não tinha nenhum registro na Justiça.
A Defensoria Pública, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e entidade de proteção aos direitos humanos protestaram. Desde então, o Exército não repetiu. “Não existe fichamento. O procedimento de fotografar documentos, o chamado sarqueamento (pesquisa ao sistema de arquivos da Polinter) é adotado para agilizar a ação policial e evitar desperdício de tempo e de recursos”, disse Braga Netto.
 “Ninguém é fichado e essa foto não é arquivada. Sem esse procedimento, teríamos que encaminhar a pessoa a uma delegacia, gastar pessoal, combustível e tempo. Essa tecnologia beneficia tanto o agente da lei como o cidadão de bem que é rapidamente liberado, evitando possíveis constrangimentos”, completou.
Membros das Forças Armadas fazem operação na Vila Kennedy, no Rio de Janeiro, parte da intervenção federal na segurança da cidade Mauro Pimentel/AFP
Braga Netto disse não acreditar que a lei sancionada pelo presidente Michel Temer no fim de 2017, que garante que crimes de militares contra a vida de civis sejam julgados na Justiça Militar, configure uma espécie de foro privilegiado.
Entre os assuntos abordados, Braga Netto afirmou que acompanha “com interesse” o debate sobre a legalização da maconha em países como Estados Unidos, Europa e Canadá. Para alguns especialistas, a legalização da droga poderia reduzir o poder dos traficantes, por exemplo.
“Trata-se de um tema extremamente complexo, que envolve uma série de vertentes e não só a segurança pública. Há experiências recentes em alguns países, mas ainda não houve tempo para se concluir sobre resultados positivos e negativos da descriminalização”, afirmou. “O uso de drogas tem um viés forte na área de saúde e na estrutura familiar. Acompanho o debate com interesse.”
Folha de São Paulo 


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