quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Entre 1929 e 1958, um estúdio de Hollywood desenvolveu uma forma de arte em que se tornou mestre (ou melhor: um celeiro de mestres): o filme musical. Reunindo talentos gigantescos entre atores/ cantores, atores/ dançarinos, compositores, coreógrafos, a Metro-Goldwyn-Mayer construiu um repertório máximo no gênero, autocelebrado no documentário Era uma Vez em Hollywood (1974), que depois teve duas continuações. A trilogia finalmente chega ao DVD no Brasil, em lançamento desta semana pela Classic Line.

Os três filmes seguem basicamente a mesma fórmula, enfileirar trechos antológicos e/ou curiosos dos musicais da Metro. Porém, com algumas diferenças entre eles. O primeiro filme, por ser o primeiro, tem o privilégio de contar com as principais cenas, dos principais filmes. Estão nele Gene Kelly debaixo d'água em Cantando na Chuva (1952), Fred Astaire dançando nas paredes e tetos de um quarto em Núpcias Reais (1951), Judy Garland em cenas de O Mágico de Oz (1939), a dança-duelo no celeiro em construção em Sete Noivas para Sete Irmãos (1954).

Os segmentos são apresentados por astros que fizeram história nos musicais do estúdio, como os próprios Asrtaire e Kelly, além de Frank Sinatra, Debbie Reynolds, Bing Crosby, outros não muito afeitos ao gênero como Elizabeth Taylor e James Stewart e por Liza Minelli, representando a mãe, Judy Garland, que havia morrido cinco anos antes).

O filme tem um tom nostálgico e até um pouco melancólico. Os atores surgem nos cenários do estúdio como a reprodução de uma rua de Nova York, ou uma estação de trem, já desgastadas pelo tempo. No período, os anos 1970, a preferência por filmagens em locação fez com que os cenários de fundo dos estúdios saíssem de moda. Ainda assim, é apresentado como uma celebração dos 50 anos da Metro e de seus "próximos 50 anos" (o estúdio não chegou lá).

O segundo filme chamou-se, nos cinemas brasileiros, Isto Também É Hollywood (1976). Dirigido por Gene Kelly, abriu o leque para, além dos musicais, apresentar cenas de dramas e comédias da Metro, como os irmãos Marx no camarote minúsculo de Uma Noite na Ópera (1935).

O filme é apresentado apenas por Kelly e Fred Astaire, que respectivamente aos 63 e 77 anos, dividem um raríssimo momento de dança juntos (a única vez em que haviam dançado juntos num filme havia sido em Ziegfeld Follies, de 1945 – Astaire já consagrado, mas Gene Kelly em ascensão).

18 anos depois, veio Era uma Vez em Hollywood III. A proposta voltou a ser mais parecida com o primeiro filme: focado só nos musicais e com vários apresentadores. Mas o filme se dedica bastante a explorar curiosidades inéditas para o público.

Assim, há cenas de Judy Garland em Bonita e Valente (1950), antes de ser substituída por Betty Hutton. Uma cena de Eleanor Powell em Se Você Fosse Sincera (1941) é colocada ao lado com a filmagem dos bastidores da cena, mostrando o imenso trabalho feito por trás das câmeras para adequar o cenário aos passos do sapateado da genial dançarina. Em outro momento, ouvimos Cyd Charisse cantar com a própria voz em A Roda da Fortuna (1953) – ela havia sido dublada. E Fred Astaire refez um número inteiro com um figurino diferente em Ver, Gostar e Amar (1952) – colocadas lado a lado, é possível ver nas duas imagens a inacreditável precisão de Astaire na coreografia.

Um momento particular da terceira parte é a participação de Lena Horne. A cantora e atriz apresenta sequências sobre ela mesma e dá um depoimento sobre o racismo que enfrentou nos dias em foi contratada pela Metro. O estúdio nunca a escalava com um bom personagem. Apenas a colocava em participações especiais, cantando, de modo que seu número pudesse ser cortado quando o filme fosse exibido em estados que praticavam a segregação racial e cujas plateias brancas não admitiriam ver uma negra linda e talentosa brilhando em um dos estúdios mais poderosos de Hollywood.

Dos astros que apresentaram o primeiro Era uma Vez em Hollywood poucos reaparecem no terceiro, que celebra os 70 anos do estúdio. São eles: Debbie Reynolds, Mickey Rooney e, especialmente, Gene Kelly, que faz aqui sua última aparição em um filme. Muito apropriado que seja sobre os musicais.

“Era uma vez em Hollywood - A coleção completa”

That's Entertainment!/ That's Entertainment! Part II/ That's Entertainment! Part III. Estados Unidos, 1974/ 1976/ 1994

Direção: Jack Haley Jr./ Gene Kelly/ Bud Friedgen e Michael J. Sheridan.

Distribuidora: Classic Line

POSTADO POR FERNANDO COUTINHO  - NAÇÃORURALISTA.COM.BR
Preço: R$ 59,90 (DVD)

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