segunda-feira, 27 de novembro de 2017

BENÇA, PADE! José MARCOS MARINHO Falcão (*)



BENÇA, PADE!
José MARCOS MARINHO Falcão (*)
A Igreja Católica brasileira vive momentos difíceis, alarmada com o êxodo dos seus fiéis.
A fuga, cientificamente comprovada, alcança principalmente os jovens e tem preocupado a cúpula das paróquias, que salvo raras exceções a tudo assiste passivamente.
O número de católicos diminuiu nas últimas décadas, desde que a população predominantemente rural se mudou para grandes cidades, onde a cultura do consumo moderno superou os costumes provinciais e onde colegiados protestantes, cortejando agressivamente seguidores em periferias urbanas e comunidades, ganharam múltiplos seguidores.
Em 1970 católicos eram 90% dos brasileiros. Agora, segundo o IBGE, somos 64,6%.
Nada desprezíveis 37 milhões de pessoas (26%), o que representa uma terra inteirinha do Papa - a Argentina - que deixou de ser católica.
É claro que eu já sabia disso e não somente eu, mas todas as famílias que viram filhos, netos, pais, mães, avós, parentes e aderentes serem seduzidos pela multidão de pastores ‘formados’ a toque de caixa ($$$$$$$) nas Universais da vida para servirem (sic!!) a tantos pobres de fé e de espírito, novos crentes de ‘milagres’ de ocasião.
Mas nesse final de semana, convocado outra vez a servir a Deus na minha Paróquia (ECC), acabei entendendo ser a situação de uma gravidade exponencial, merecedora de reflexão profunda do mundo católico.
E mais: do trabalho pastoral de todos que somos filhos do Pai - bons ou maus.
CARINHA DESTRAMBELHADO...
O guiso no gato quem botou foi um menino que a paróquia do Sagrado Coração de Jesus, no Catolé, chama de padre e que ganhou tal distinção há somente dois anos e alguns dias.
O precoce reverendo, cuja idade comporta me chamar de pai - e eu lhe abençoar como filho - aparenta à primeira vista ser um desses carinhas destrambelhados que se avoca o direito de ser sabe tudo, desses que hoje a gente encontra em qualquer esquina da troupe rica de cidades como a nossa.
Seria ele, o novo padre do Catolé/Itararé/Sandra Cavalcanti, não mais que um simples “engomadinho”, tipo volúvel e espevitado que costumeiramente encontramos a se “amostrar” nas baladas e bares da moda como o do Cuscuz, por exemplo, em matinés e noitadas regadas a uísques e cachaças provenientes dos mais caros alambiques do brejo regional.
Um “padreco”, talvez, boyzinho ainda imberbe com catinga de mijo no meio das pernas...
Seria isso, ou mais, não fosse o corpo de ogre tupiniquim a lhe dar visibilidade de não ser homem de levar desaforo prá casa, acaso seu mundo fosse o pagão, e não este de religioso que abraçou de forma vocacionalmente acertada.
É um padre de vozeirão, dono de urro que sobe do peito onde aloja um coração de apóstolo ungido pelo óleo da plena salvação.
Um padre por inteiro...
Digno e capacitado ao pastoreio pleno de todas as ovelhas desse rebanho cuja dispersão a mim me parece ter agora entrado em fase de contenção.
Estou me referindo a Hachid Ilo Beserra de Sousa, Vigário Paroquial da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus - um treme-terra.
Foi este homenzarrão corpulento e atlético, olhos quase vesgos postados ao infinito nos instantes de seu transe nas homilias, quem abriu meus olhos domingo para esse avassalador desastre silencioso que se abate velozmente sobre o mundo católico do Brasil, prestes a dizimá-lo.
MÃE DINAH PORRETA...
Lembro que o irreverente Nelson Rodrigues preconizou lá na década de 70 que o Brasil seria, no futuro, o maior país de ex-católicos do mundo.
Pense num “Mãe Dinah” porreta!
A profecia parcialmente virou realidade e dela não podemos mais fugir.
O que podemos, isso sim, é estancar o seu alcance. Por isso a providência divina, que às vezes pode até vir a tardar mas jamais faltará, começou a operar no Catolé e alhures pelas espalmadas mãos de Hachid, meu confessor desde quarta-feira da semana passada.
Vejamos a gravidade: No último censo, os protestantes subiram de 15% para 22,2%, e dentre estes estão os tradicionais que ficaram patinando nos 4%.
O espiritismo, que na década de 50 pensou-se que seria a religião do Brasil, estancou em 2%, felizmente.
Os “sem religião” margeiam os 8%, sendo que os 3% restantes estão espalhados nas diversas outras propostas religiosas.
Então, basicamente, o funil de saída é para o protestantismo e, daí, parte deles migra para os “sem religião” – o que não quer dizer que se tornam ateus.
Surge então a inevitável pergunta: Quando estancará o vertedouro de escoamento, pois vários são os fatores, objetivos e subjetivos interferentes nesse processo, alguns deles relevantes, conforme verifiquei pesquisando esse universo que Hachid prostrou na minha e na cara dos demais até então despreocupados encontristas do ECC.

TRADIÇÃO NÃO DÁ MAIS LIGA...
O “espírito do tempo” que estamos vivenciando, um mundo plural, em que a morte do passado nos revela que tradição não dá mais liga e o individualismo é o senhor da razão, é o primeiro.
Nesta nova visão de mundo tem muito pouco valor aquilo em que os antepassados creram e viveram. A experimentação do novo e a curiosidade do desconhecido soam forte em cada um.
Segundo Dr. Flávio Pierucchi, da USP, é “uma sociedade que não precisa mais de Deus para se legitimar, se manter coesa, se governar e dar sentido à vida social, mas que, no âmbito dos indivíduos, consome e paga bem pelos serviços prestados em nome d’Ele”.
A humanidade já viveu uma experiência parecida em meados do século XIX, com a crise Católica da negação do modernismo, acrescida do movimento milenarista e do sucesso da ciência insipiente, que tudo parecia provar e demonstrar.
Foi naquela trajetória que nasceram o Positivismo, o Espiritismo, o Adventismo, os Mórmons, as Testemunhas de Jeová, a Teosofia, o Exército da Salvação e tantas outras religiões.
Eram propostas notadamente anticatólicas, porém inovadoras e muitas dessas permaneceram no tempo.
Paradoxalmente, podemos considerar o movimento religioso evangélico atual fugaz e consonante com a onda consumista.
Ele é fragmentado em milhares de denominações que seguem o discurso do pastor fundador e, na maioria das vezes, com uma adaptação racional e funcional do evangelho às necessidades pessoais – uma forma híbrida de autoajuda.
O segundo alcançou o êxodo rural, como apontamos no começo dessa conversa.
Houve o deslocamento de grandes massas de gente do campo para as cidades, mais de 35 milhões de migrantes que incharam os grandes centros, principalmente nas periferias.
SERMÃO É COM HACHID...
Mas, não venho aqui nesse meu espaço d’APALAVRA fazer sermão.
Isso é com Hachid. Aliás, nessa seara ele é dono de uma invulgar, impressionante e cativante competência.
O que quero exprimir é a vontade absoluta de cooperar para o estancar dessa gangrena; consequentemente, ajudar a retirar todas as vendas dos olhos do povo da minha paróquia, em dever-de-casa que espero possamos - padre Hachid, Dom Delson e todos os que formamos a Igreja - alastrar para as demais comunidades campinenses.
Hachid na ‘aula’ que para nós ministrou no ECC fez vivíssimo o pensamento do Papa Francisco, externado nesse foco do êxodo já quando veio ao Brasil no começo do seu papado, em 2012.
De que às vezes perdemos as pessoas porque elas não entendem o que estamos dizendo, porque nos esquecemos a linguagem da simplicidade e importamos um intelectualismo estrangeiro para ajudar ao nosso povo.
A pergunta do Papa no Rio de Janeiro foi espetacular: “Ainda somos uma Igreja capaz de aquecer os corações?", questionou ele francamente sobre a hemorragia da Igreja Católica reconhecendo que muitos fiéis veem a Igreja como uma "relíquia do passado" e "prisioneira de suas próprias fórmulas rígidas”.
O Papa pregou a necessidade de sermos uma Igreja capaz de andar ao lado das pessoas, de fazer mais do que simplesmente ouvi-las.
E não é mais do que isso que Hachid tem feito no quinhão que lhe deram a pastorear na Rainha da Borborema.
Nada fácil, é imperioso se dizer.
AO LADO DA GENTE, MAS NÃO PARA PECAR...
Mas é aí que mora o perigo... Andar sim, ao lado da gente, mas não necessariamente para atender aos vícios da gente.
Andar sim, ao lado da gente, mas não para ser cúmplice dos defeitos da gente.
Andar sim, ao lado da gente, mas nunca para passar a mão na cabeça dos pecados da gente.
O perigo está realmente aí e é por isso que decidi exaltar as qualidades do jovem padre Hachid para que outros campinenses que não apenas os do Catolé e bairros limítrofes saibam do seu existir; das suas reverendíssimas qualidades.
Dizem por aí que a Nova Missa, cujo modelo avançado surgiu para tentar paralisar o êxodo e trazer os jovens de volta, escamoteia a noção de sacrifício propiciatório e o ofertório, acentuando de modo excessivo a Ressurreição.
Em uma das palestras que assisti no último ECC, pedagogicamente conduzida por leiga paroquiana e cujo tema foi a administração da Diocese e sua hierarquia, a contestei em canto apartado quando ela apartou da UNIÃO da Igreja o mundo da Arquidiocese, ferindo a meu ver a questão da colegialidade.
E tenho dito: Bispos “obedecem” ao Papa (sua hierarquia) quando concordam com ele. E nem ligam para o Papa, ou o desafiam, quando discordam dele.
Aqui vi isso e a palestrante minimizou: “...a Arquidiocese é somente o bispado da Capital”.
Não me convenceu.
E a colegialidade da Igreja, onde leigos celebram junto com o padre sem roubar-lhe o ministério as missas, inclusive, não é democraticamente saudável? Tem algo de mais belo e participativo nesse tempo de necessidade de avançar?
Não é que cada um faça o que quer na Igreja, onde até parece que ninguém manda ou não obedece, como se república fosse.
Criticam os desinformados ou fujões que a Nova Missa fez do sacerdote um show man; que os seminários se preocupam em formar padres “simpáticos” (ridículos), “atraentes” (bonitinhos), “labiosos” (parladores ignorantes) e que já não se distribui ao povo fiel o pão da palavra de Deus.
Mas é aí que, repito, mora o perigo!
Em tempos de Facebook, Whatssap, Twitter, Instagran e toda uma inovadora linguagem reduzida a símbolos e abreviações, como utilizar-se de fala diferente para atrair de volta as ovelhas desgarradas pelo mofo existente nas rígidas celebrações?
E não é que Hachid é mesmo tudo aquilo que dizem se ensina nos cursos de Teologia?
É sim, senhor!
Labioso que chega a babar... Nem tanto atraente ou simpático, mas na paróquia lá tem quem ateste: “tem as horas!”.
Isso sem que venha a ser bonitinho, ignorante, atraente... É ele, na verdade, um raro caso de ajuntamento de teses do que seria um erro e que resultou em unanimidade positiva.
“Deus é um barato”, “crer em Deus é uma boa”, ”Deus é legal’...
Nem tanto ao céu, nem tanto ao mar, mas o rebuscar linguístico do nosso reverendo é cheio de prosopopéias. Nada chulo, diga-se, nem de oitiva difícil.
Um dia ouvi ele avisar a fiéis que “se a gente se cruzar no inferno...”
E por que não? Padre peca, padre não é Deus, padre pode seguir sem sua mão direita (abençoada no dia da ordenação) para os recintos de Satanás, ora se não!
É essa a linguagem simples que a Igreja do Papa Francisco e de todos nós elegeu para aumentar os índices do seu devastado rebanho.
Por isso, acho eu, Hachid abandonou a sacristia, tem ido na direção dos marginalizados da sociedade porque isso nele é nato; vem de berço.
É, simplesmente, VOCAÇÃO.
Curiosamente ovacionado em todas as celebrações, por jovens e velhos, é nosso pop-star, mas das sandálias de pescador não se desgarra.
E deixa eu chateá-lo: “bença, pade!”.
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(*) Artigo publicado originalmente em www.apalavraonline.com.br
POSTADO POR FERNANDO COUTINHO
sou amigo de DEUS
NAÇÃORURALISTA.COM.BR

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