quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Congressistas veem em Trump um parceiro indigno de confiança

Em campanha, o presidente Donald Trump costumava se descrever como um dos melhores negociadores do planeta, mas, depois de nove meses de dificuldades em intermediar acordos, legisladores dos dois partidos americanos o veem como negociador indigno de confiança, cronicamente incoerente e nada concentrado.
Enquanto Trump se prepara para visitar o Congresso nesta terça-feira (24) a fim de unificar seu partido antes de uma sessão crucial de votações sobre cortes de impostos e propostas orçamentárias, alguns republicanos estão questionando abertamente sua capacidade de negociação e começam a desenvolver estratégias para impedi-lo de mudar de ideia.
A propensão do presidente a criar distrações e seguir tangentes o impede de se concentrar em sua agenda legislativa e forçou legisladores que poderiam ser seus aliados naturais quanto a políticas importantes assumir a desconfortável obrigação de responder por seu comportamento e rompantes.
Por exemplo, a entrevista coletiva que Trump deu na segunda-feira em companhia do senador Mitch McConnell, do Kentucky, líder da maioria republicana no Senado, orquestrada para enfatizar a unidade do Partido Republicano sobre questões tributárias, terminou por causar uma controvérsia inesperada sobre o tratamento de Trump a soldados caídos no cumprimento do dever, que colocou a Casa Branca na defensiva e vem dominando a mídia norte-americana há sete dias.
O senador Lamar Alexander, republicano do Tennessee, passou semanas preparando um projeto de lei de saúde com a senadora Patty Murray, democrata de Washington, e repentinamente sentiu contar com a atenção e encorajamento de Trump, ao receber um telefonema do presidente em 7 de outubro.
Alexander estava jantando com sua mulher quando o presidente o interrompeu, e disse que saiu do restaurante e passou 15 minutos na calçada conversando com Trump, que, segundo ele, expressou apoio a buscar um acordo bipartidário para a questão.
O líder da minoria democrata no Senado, Charles Schumer, de Nova York, disse que o presidente ligou para ele na mesma semana, interrompendo seus exercícios na academia para propor que os dois partidos trabalhassem juntos na reforma da saúde.
Mas na semana passada, Trump criou confusão. Na segunda-feira - momentos depois que Alexander e Murray divulgaram um anteprojeto de autorização de curto prazo ao desembolso de subsídios federais para ajudar os norte-americanos de baixa renda a pagar por seus planos de saúde, que o governo havia suspendido -, Trump declarou apoio ao esforço.
Poucas horas mais tarde, porém, ele parecia claramente desinteressado.
"Estava surgindo algum ímpeto em favor da ideia de Lamar, até que o presidente mudou de ideia, depois de primeiro tê-lo encorajado a ir adiante com a proposta", disse o senador Bob Corker, republicano do Tennessee. "A verdade é que ninguém sabe onde ele vai estar. Qual será a posição dele neste exato instante?"
Corker disse que seu colega do Tennessee no Senado tem "uma paciência de Jó" para negociar com Trump, em referência ao profeta bíblico que manteve sua fé apesar de sofrer uma sucessão de pragas.
Se a ausência de qualquer realização legislativa importante serve como indicador, a competência como negociador que propeliu a carreira de Trump no mundo dos imóveis e reality shows não se traduziu bem na esfera governamental.
Tony Schwartz, que foi discípulo de Trump por muito tempo mas agora o critica, e é coautor de "The Art of Deal" (a arte da negociação), best-seller lançado pelo magnata em 1987, disse que, ao negociar, o modus operandi de Trump é "sou incansável e não me deixo sobrecarregar por preocupações quanto à ética do que estou fazendo ou a veracidade do que estou afirmando".
"Na política, a expectativa de que você de fato faça o que disse que faria é mais forte do que no mundo impiedoso das transações imobiliárias", acrescentou Schwartz. "O ambiente [dos negócios imobiliários] é brutal, e iludir, intimidar, fazer uma oferta e mudá-la mais tarde, são práticas comuns."
Trump atribuiu inteiramente aos legisladores a falta de sucesso de sua administração no Congresso -uma exceção foi a aprovação pelo Senado do indicado de Trump para a Suprema Corte, o juiz Neil Gorsuch.
"Não estamos fazendo o serviço", disse Trump na segunda-feira em uma reunião de seu gabinete. "E não vou assumir a culpa. Serei honesto. São eles que não estão fazendo o serviço... não estou feliz com isso e muita gente não está feliz com isso".
Mas os senadores disseram que o presidente também é responsável pela turbulência e pelos impasses deste ano e observam que a lentidão na redação e aprovação de leis, um processo que muitas vezes acontece de maneira entrecortada, foi um choque cultural para Trump.
"Ele é o tipo de cara que, como todos sabem, vem do mundo dos negócios e tem pressa de fazer as coisas", disse o senador John Thune, de Dakota do Sul, que preside a conferência republicana no Senado. "Por aqui, isso é complicado. As coisas demoram, você sabe. É um processo - e às vezes um processo meio lento e doloroso."
A falta de raízes ideológicas de Trump o torna uma figura incomum em Washington, onde a maioria dos legisladores adere rigidamente às agendas de seus partidos. O senador Joe Manchin 3º, democrata da Virgínia Ocidental, disse que Trump "se sente muito mais confortável conversando e trabalhando de maneira bipartidária do que ao tentar defender uma plataforma partidária".
O senador Orrin Hatch, republicano de Utah, se reuniu com Trump e outros legisladores na Casa Branca na semana passada, e concorda. "Creio que é uma loucura dos democratas não tentarem negociar com ele diretamente", ele disse. "Sete anos atrás, ele era democrata. Não é preciso muito cérebro para imaginar que esteja aberto a conversar."
De fato, Schumer e a deputada federal Nancy Pelosi, da Califórnia, que comanda a bancada democrata na Câmara, saíram de um jantar com Trump em setembro acreditando que tinham chegado a um acordo com o presidente sobre um projeto de lei de apoio a imigrantes não registrados trazidos aos EUA quando crianças.
Mas em outubro o governo Trump divulgou uma lista de princípios linha dura que na prática impossibilitam qualquer acordo desse tipo. A lista de desejos da Casa Branca inclui o reforço das leis de imigração e verbas para a construção de uma muralha na fronteira entre os Estados Unidos e o México, e as autoridades descartaram a hipótese de criar um caminho para que os imigrantes não registrados que chegaram aos EUA na infância se naturalizem.
Trump tem percorrido o país para divulgar seu plano de fortes cortes de impostos, e os alvos de seus discursos incluem Manchin e outros senadores democratas que disputarão a reeleição em 2018 em Estados nos quais Trump venceu a eleição do ano passado. O presidente se vangloriou de que aprovaria facilmente o projeto de lei de reforma tributária, neste final de ano, ainda que não haja um projeto de lei tramitando.
"Creio que teremos votos para o corte de impostos", disse Trump na sexta-feira em entrevista à Fox Business Network. "E vou dizer que o fato de que a saúde é um problema tão difícil na verdade torna mais fácil aprovar [a mudança n]os impostos. Os republicanos querem aprovar, e será um tremendo corte de impostos."
Mas Trump vem sendo contraditório em seus pronunciamentos sobre que forma terá o projeto de reforma tributária. No começo de outubro, a senadora Heidi Heitkamp, democrata de Dakota do Norte, disse aos seus eleitores que o plano que estava emergindo da Casa Branca parecia ser o tipo de medida que ela poderia apoiar.
"Já conversei com a equipe do presidente quatro ou cinco vezes, e eles me disseram que o projeto vai cortar os impostos da classe média", disse Heitkamp em uma mesa redonda em Bismarck, perto do local em que Trump discursou em setembro promovendo seu corte de impostos.
No entanto, 10 dias mais tarde a senadora disse a repórteres no Congresso que o plano do governo continua a ser um mistério. "Não sei o que eles propõem", ela disse.
Schumer disse que a chave para que as coisas avancem no Congresso é que o presidente se afaste do processo,
"Nossos colegas republicanos terão de perceber que, se querem realizar alguma coisa, não podem seguir o caminho errático que ele impõe", disse o senador. "Terão de liderá-lo, não segui-lo".
É claro que Trump jamais se viu como seguidor. Perguntado se o que ele aconselha seria possível na prática, Schumer disse que o projeto de Alexander e Murray para resolver a crise da saúde poderia servir como modelo. "Vai acontecer assim", ele afirmou.
Uma maneira pela qual alguns legisladores estão tentando influenciar Trump e levá-lo a manter o foco é interagir com ele de modo mais frequente.
"Ele é um negociador, e é extremamente flexível", disse o senador Lindsey Graham, republicano da Carolina do Sul, com uma risadinha. "É preciso continuar conversando com ele. Mantê-lo próximo."
Graham já teve brigas feias com Trump. Os dois disputaram a indicação presidencial republicana em 2016. Trump leu o número do celular de Graham em voz alta em um comício e convidou seus partidários a ligarem para ele. Mas Graham está tentando servir como mediador entre seus colegas no Senado e o presidente.
Karim Sahib/AFP
Anúncio gigantesco mostra Trump jogando golfa no Trump International Golf Club Dubai, nos Emirados Árabes Unidos
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Ele vem tentando resolver suas diferenças com Trump no campo de golfe. Os dois jogaram juntos duas vezes este mês no Trump National Golf Club, na Virgínia, e depois do primeiro desses encontros Graham aparentemente tentou lisonjear o presidente, com grandes elogios à sua habilidade no golfe em entrevista ao jornalista esportivo Michael Bamberger, que jogou golfe com Trump diversas vezes.
"O que me impressionou no presidente foi sua tacada firme e compacta; ele consegue escapar das armadilhas na pista com facilidade", disse Graham. O senador acrescentou que "ele sempre acerta bem no meio da bola. Sempre se posiciona bem por trás da bola. Sua tacada é atlética. Ele chega lá toda vez".
Schwartz disse que tentar amaciar o ego de Trump, como Graham fez ao elogiar o desempenho dele no golfe, é uma maneira efetiva de administrá-lo. O conselho dele a quem deseje negociar com Trump é encontrar a melhor maneira de retratar sua agenda de negociação como se fosse uma vitória pessoal para o presidente, e ser sempre a última pessoa a conversar com ele sobre dado assunto.
"Trump é motivado pela mesma preocupação em todas situações, que é a de dominar e ser percebido como vitorioso", disse Schwartz. "Isso supera tudo mais, incluindo a ideologia".
Folha de São Paulo 


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